Picture of Rudá

Rudá

Trader Profissional

Performance

Alta Performance: Entre a Maestria e o Equilíbrio

“Alta Performance: Entre a Maestria e o Equilíbrio”

Recentemente, cruzei com um jovem trader, ainda nos primeiros desafios de sua carreira. Seus olhos, visivelmente cansados, e sua postura, ligeiramente curvada, contavam uma história de desgaste. Dia após dia, ele mergulhava profundamente no universo dos gráficos e análises técnicas, enfrentando uma enxurrada constante de informações, tudo em nome da maestria no trading.

“Não me dou trégua. Estou em constante aprendizado”, confessou-me, a voz carregada pelo peso da exaustão. Suas noites, antes de descanso, tornaram-se extensões de seu estudo. Movido pela curiosidade, perguntei sobre sua vida além do trading, esperando ouvir sobre momentos de descontração e lazer. Mas sua resposta, um silêncio profundo e resignado, revelou mais do que qualquer palavra: “Já não tenho mais vida fora daqui.”

A paixão pelo trading o levou a se afastar daqueles momentos preciosos com amigos e família. Novas aventuras, novos amores, tudo foi deixado para trás. Tudo em nome da promessa de alta performance e da liberdade que o trading prometia. E, ao ouvir sua história, não pude deixar de me questionar: É realmente preciso sacrificar tanto para alcançar a excelência?

Hoje, embora escreva frequentemente para traders, meu público vai além, abrangendo todos que caminham pela estrada da alta performance. É inegável que é uma jornada solitária. Mas, será que essa abordagem isolacionista é a mais promissora a longo prazo? Sinceramente, temo que não.

Lembro-me de minha infância e adolescência, marcadas por um rigoroso regime de estudos e atividades. Mas, mesmo então, havia espaço para alegria, amigos e descobertas. Já na fase adulta, principalmente após os vinte anos, houve períodos em que a busca pelo conhecimento e aprimoramento consumiam todo o meu tempo. Eram dias de estudo intenso, que se estendiam por quase 8 horas, e ainda havia o trabalho. Nesses momentos, minha vida social era praticamente inexistente. E o que me impulsionava nessa busca quase obsessiva pelo sucesso? A constante comparação com os outros. Aquela sensação de que, de alguma forma, eu estava ficando para trás.

Vivemos em uma era onde as vitrines de nossas vidas estão em constante exibição. As redes sociais tornaram-se plataformas onde muitos escolhem mostrar apenas os melhores momentos, as conquistas e as alegrias. Raramente vemos os bastidores, as lutas, os fracassos e os momentos de vulnerabilidade. Esse fluxo constante de “perfeição” projetada pode levar a comparações inevitáveis, alimentando sentimentos de inadequação e insuficiência.

Observamos o sucesso de um atleta quebrando recordes, mas desconhecemos suas dores e privações. Ouvimos gravações tão perfeitas que parecem ter sido feitas por músicos celestiais, contudo, muitas vezes esquecemos dos engenheiros de som e dos avançados softwares envolvidos. Assistimos a um balé e nos maravilhamos com sua graça e beleza, mas não enxergamos os pés machucados da bailarina… E quando se trata de traders, deparamo-nos com boletas que, por vezes, seriam suficientes para nos manter por um ano inteiro, talvez mais; entretanto, ignoramos quanto já foi perdido, o capital investido e até se essa representação é genuína.

A constante exposição a essas “vidas perfeitas” pode criar uma distorção em nossa percepção da realidade. Começamos a nos questionar: “Por que minha vida não é assim? O que estou fazendo de errado?” Essa comparação, muitas vezes inconsciente, torna-se um ciclo vicioso de autojulgamento e busca incessante por validação externa.

Não é raro ver indivíduos esforçando-se excessivamente para alcançar padrões muitas vezes inatingíveis, apenas para se sentirem à altura de seus pares. Esse esforço pode resultar em exaustão mental, ansiedade e até mesmo depressão. A comparação constante nos priva da capacidade de apreciar nossas próprias jornadas, valorizando mais a destinação do que o percurso.

O que muitos esquecem é que cada pessoa tem sua própria trajetória, repleta de altos e baixos, desafios e vitórias. Comparar nossa vida inteira, com todas as suas complexidades, a um mero fragmento da vida de outra pessoa é não apenas injusto, mas também autodestrutivo.

A busca pela alta performance, em minha perspectiva, não está atrelada à comparação com os outros, mas sim a um comparativo interno. Estamos progredindo individual e profissionalmente? Precisamos refletir, dando valor às nossas conquistas e apreciando nossos momentos singulares. As redes sociais, embora sejam poderosos meios de conexão e inspiração, demandam um consumo consciente e analítico, pois devemos sempre ter em mente que o que observamos representa apenas um fragmento da realidade completa.

Baseado em minha trajetória, percebi que ser excessivamente obsessivo mais atrapalhou do que ajudou. As consequências diretas dessa obsessão eram noites de insônia, que resultavam em dias de cansaço e ineficiência. Ironicamente, isso me forçava a estudar ainda mais, mesmo produzindo menos. Muitas vezes, me pegava comendo em excesso ou, em outros momentos, negligenciando as refeições.

Com o passar dos anos, compreendi que a verdadeira magia reside no equilíbrio. Quando me dedicava aos estudos, estava completamente imerso. E o mesmo acontecia nos momentos de lazer. Meu diário se tornou uma ferramenta valiosa nesse processo, pois, ao revisitá-lo, percebia minha evolução, o que me proporcionava uma satisfação genuína.

Entendi que alta performance não significa dedicar-se exclusivamente a uma única meta, mas sim empenhar-se de forma intensa e focada durante determinados períodos. E esses períodos podem ser quantificados em horas diárias, dias semanais, semanas mensais e meses anuais.

Trading, assim como qualquer profissão, demanda tempo e possui uma curva de aprendizado inerente. A ideia de enriquecimento rápido é uma ilusão enganosa e distorcida. O mesmo se aplica ao processo de aprendizagem. É imperativo dar-se o tempo necessário para assimilar, compreender e, verdadeiramente, aprender.

Talvez aqui esteja o cerne deste texto, equilíbrio.

Não existe justificativa para não encontrar um amigo para um café, bem como um chopp no fim de semana. Sua namorada, ou namorado, merece um passeio e uma ida ao cinema, bem como seus filhos merecem pais participativos.

A vida é uma jornada e felicidade é o caminho, não um ponto de chegada.

E, falando em jornadas, sou lembrado de uma antiga parábola:

Dois monges estavam a caminho de um monastério distante. Durante sua jornada, encontraram um rio caudaloso. Na margem, uma jovem mulher estava hesitante, incapaz de atravessar por conta própria. Vendo sua dificuldade, o monge mais velho a pegou nos braços e a carregou até o outro lado. Ela agradeceu, e os monges continuaram seu caminho.

Horas se passaram e o monge mais jovem, visivelmente perturbado, disse: “Não podemos tocar mulheres. Como você pôde carregá-la através do rio?” O monge mais velho, com um sorriso sereno, respondeu: “Eu a deixei na margem do rio horas atrás. Por que você ainda a está carregando?”

Essa parábola nos ensina sobre o peso que damos às coisas em nossas mentes. Muitas vezes, carregamos fardos desnecessários por muito mais tempo do que precisamos. Assim, enquanto nos esforçamos para alcançar a alta performance, devemos lembrar de também liberar o peso de expectativas, comparações e obsessões, encontrando equilíbrio em nossa jornada.

Seja feliz nessa jornada e não confunda o que é urgente com o que é verdadeiramente importante. Que o propósito sempre seja maior que o preço a pagar. Afinal, como traders, sabemos a importância de não pagar caro por um ativo.

plugins premium WordPress
pt_BRBR